Ele ficou parado à beira do penhasco. Um rio,fino mas profundo corria há metros abaixo, refletindo o brilho triste de uma lua que já tinha estado cheia. As estrelas faziam o mundo parecer ainda mais desolador para aquela alma em questão. E o silêncio. O silêncio era sufocante, sendo cortado pelo barulho do vento sussurrando entre as folhas das altas arvores que rodeavam aquele penhasco. Um penhasco já conhecido.Depois de tantas andanças pelo mundo, observando as décadas se transformarem em séculos, tudo se tornou igual. O ser humano era igual, apenas mudando roupas e evoluindo ideias.
Já estava na hora, quando consultou o relógio. Marcava dez e sete. Se aproximou um pouco mais da beirada, fitando o rio calmo abaixo de seus pés, sua unica testemunha da vida longa que levara depois que sua amada havia pulado para acompanhar a correnteza dessas mesmas águas. Isso ocorreu quando? duzentos anos? Não calculava mais, mas como o mundo havia se tornado, superficial, critico, buscando uma perfeição, esses anos pareciam pesar dois mil. Se fosse outra era, outra época, sobreviveria, mas o peso do mundo atual era grande demais para uma pobre alma que viu a evolução humana se tornar o que é, era pesado demais para uma pobre alma imortal.
Seus pés perderam o chão, e aquele ser sentiu seu corpo leve, como se fosse um pássaro negro em seu voo rasante em busca da água, em busca da paz. Nem uma alma imortal aguentaria um mundo atual. Sorte dos humanos não viverem tanto ao ponto de perceberem a sociedade em que vivem.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Triunfo sobre a morte.
Ele escrevia freneticamente em
um pequeno caderno de anotações. A sombra da chama da vela ao lado dançava
vagarosamente nas folhas do caderno. Consegui, pensou ele, passando a mão em
sua barba cinza e branca, havia conseguido, depois de anos de tentativas,
vencer a morte, triunfar.
Deitou na cama eufórico,
acordando sua esposa.
- Descobri a fórmula certa,
Holga. - Sussurrou para a esposa.
- Como? - Disse a esposa, se
sentando na grande cama. Desembaraçou com a mão os cabelos com raízes já
brancas. - Tem certeza?
- Sim, tenho certeza. Foram
cálculos errados, você não entenderia os compostos, mas consegui a equação.
Preciso que me ajude a testá-la amanhã.
- Mas não temos mais coelhos,
precisaremos caçá-los, mas amanhã naã conseguiremos. - Disse ela, preocupada.
- Não, não - Ele gesticulou
com as mãos. - Preciso testar amanhã, sem coelhos, e preciso de ajuda.
- Irá testar como? Em você? -
Disse incrédula - Deixe que eu caço os coelhos. - Se deitou, virando-se para
dormir.
Ele se acomodou, coçando
novamente sua barba comprida, seria uma longa noite. Não dormiu, assim que os
primeiros raios do sol começaram a surgir, se levantou silenciosamente,
conferindo se Holga continuava a dormir. Caminhou lentamente para a sala,
sentindo o assoalho gelado rangendo por baixo dos seus pés, saboreando a
sensação, como se pudesse ser a última, ou a última de sua grande descoberta.
Procurou um pequeno frasco,
fazendo a solução da equação escrita na noite anterior. Observou os feixes de
luz iluminarem a sala, revelando os cantos que antes estavam na escuridão.
Seria ali mesmo. Pegou no armário sua arma, conferindo as balas, uma seria
suficiente. Voltou para o quarto para ver a esposa, e o ronco baixo mas
profundo foi a confirmação que ela dormia, ainda.
Voltou para a sala,
sentando-se no pequeno sofá roxo, com manchas claras devido ao produto que
Holga usava para limpar. Esperou quando o sol apareceu na grande janela a sua
frente, forte.
- Um brinde à nós. – Disse,
levantando o frasco em direção ao sol. Bebeu. Esperou alguns minutos, mas nada
aconteceu. Ele tinha certeza que acertara a equação, não precisava de sintomas
para ter funcionado.
Respirou fundo, pegando sua
arma ao lado no sofá, e a posicionou em direção ao coração. Apertou o gatilho.
Sentiu uma dor latejante, uma queimação começando do buraco no peito, se
espalhando por todo o seu corpo. Tudo virou preto, ou era branco?
Holga acordou com um barulho,
era a arma do marido. Correu para a sala, se deparando com uma pequena poça de
sangue no chão abaixo do corpo caído dele. Gotas de sangue pingavam no chão.
Ele havia testado em si mesmo, pensou ela no momento, aos prantos. Viu o
pequeno frasco pousado no corpo, confirmando a tentativa. Mas ela acreditava
nele, acreditava que iria voltar dos mortos, prometera.
Limpou o chão e o corpo,
estancando um pouco o sangue do corpo. Sentou ao lado, analisando a pele
esbranquiçada. Naquele dia não almoçou nem jantou, rondando o corpo. À noite
não dormiu, chorando silenciosamente, temendo que o marido acordasse enquanto
dormia.
No segundo dia comeu o
suficiente para continuar ao redor do corpo, esperando algum sinal de
movimento. Ele continuava imóvel. Era um defunto se decompondo com vermes
dentro, pensou ela, e esse pensamento se apoderou da sua mente. E se ele não
tivesse equacionado certo? Ela era uma viúva com um defunto sem enterrar, mas
tinha acreditado nele. Iria esperar.
No terceiro dia, ainda sentada
ao lado do cadáver, disse para si mesma que seu marido estava morto. Comunicou
as autoridades aos prantos, dizendo que ele havia cometido suicídio na noite
anterior. Após o velório, Holga pegou o pequeno caderno de anotações, ateando
fogo a cada pagina.
No sétimo dia, na vala mais
nova do cemitério, um caixão estralou. Ele acordou, um pouco confuso, se
recordando da bala. Ele havia sobrevivido, tinha descoberto mesmo como vencer a
morte. Eufórico, se mexeu, sentindo a madeira úmida ao seu redor. Olhou para a
escuridão que cobria seu corpo, estava em um caixão. Holga não havia acreditado
nele, ou ele demorou muito? Bateu com os punhos na madeira, fazendo força,
precisava sair debaixo da terra, precisava falar para o mundo que havia
descoberto como vencer a morte, mas estava enterrado. O ar começou a faltar, e
o pânico se apoderou dele. Empurrava com as mãos e os joelhos, mas só sentia o
movimento da terra ao seu redor. Aos poucos perdeu as forças e desmaiou. Foi
enterrado com a sua descoberta de que havia triunfado sobre a morte, mas a
própria morte havia triunfado sobre ele, afinal.
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