sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Triunfo sobre a morte.



Ele escrevia freneticamente em um pequeno caderno de anotações. A sombra da chama da vela ao lado dançava vagarosamente nas folhas do caderno. Consegui, pensou ele, passando a mão em sua barba cinza e branca, havia conseguido, depois de anos de tentativas, vencer a morte, triunfar.
Deitou na cama eufórico, acordando sua esposa.
- Descobri a fórmula certa, Holga. - Sussurrou para a esposa.
- Como? - Disse a esposa, se sentando na grande cama. Desembaraçou com a mão os cabelos com raízes já brancas. - Tem certeza?
- Sim, tenho certeza. Foram cálculos errados, você não entenderia os compostos, mas consegui a equação. Preciso que me ajude a testá-la amanhã.
- Mas não temos mais coelhos, precisaremos caçá-los, mas amanhã naã conseguiremos. - Disse ela, preocupada.
- Não, não - Ele gesticulou com as mãos. - Preciso testar amanhã, sem coelhos, e preciso de ajuda.
- Irá testar como? Em você? - Disse incrédula - Deixe que eu caço os coelhos. - Se deitou, virando-se para dormir.
Ele se acomodou, coçando novamente sua barba comprida, seria uma longa noite. Não dormiu, assim que os primeiros raios do sol começaram a surgir, se levantou silenciosamente, conferindo se Holga continuava a dormir. Caminhou lentamente para a sala, sentindo o assoalho gelado rangendo por baixo dos seus pés, saboreando a sensação, como se pudesse ser a última, ou a última de sua grande descoberta.
Procurou um pequeno frasco, fazendo a solução da equação escrita na noite anterior. Observou os feixes de luz iluminarem a sala, revelando os cantos que antes estavam na escuridão. Seria ali mesmo. Pegou no armário sua arma, conferindo as balas, uma seria suficiente. Voltou para o quarto para ver a esposa, e o ronco baixo mas profundo foi a confirmação que ela dormia, ainda.
Voltou para a sala, sentando-se no pequeno sofá roxo, com manchas claras devido ao produto que Holga usava para limpar. Esperou quando o sol apareceu na grande janela a sua frente, forte.
- Um brinde à nós. – Disse, levantando o frasco em direção ao sol. Bebeu. Esperou alguns minutos, mas nada aconteceu. Ele tinha certeza que acertara a equação, não precisava de sintomas para ter funcionado.
Respirou fundo, pegando sua arma ao lado no sofá, e a posicionou em direção ao coração. Apertou o gatilho. Sentiu uma dor latejante, uma queimação começando do buraco no peito, se espalhando por todo o seu corpo. Tudo virou preto, ou era branco?
Holga acordou com um barulho, era a arma do marido. Correu para a sala, se deparando com uma pequena poça de sangue no chão abaixo do corpo caído dele. Gotas de sangue pingavam no chão. Ele havia testado em si mesmo, pensou ela no momento, aos prantos. Viu o pequeno frasco pousado no corpo, confirmando a tentativa. Mas ela acreditava nele, acreditava que iria voltar dos mortos, prometera.
Limpou o chão e o corpo, estancando um pouco o sangue do corpo. Sentou ao lado, analisando a pele esbranquiçada. Naquele dia não almoçou nem jantou, rondando o corpo. À noite não dormiu, chorando silenciosamente, temendo que o marido acordasse enquanto dormia.
No segundo dia comeu o suficiente para continuar ao redor do corpo, esperando algum sinal de movimento. Ele continuava imóvel. Era um defunto se decompondo com vermes dentro, pensou ela, e esse pensamento se apoderou da sua mente. E se ele não tivesse equacionado certo? Ela era uma viúva com um defunto sem enterrar, mas tinha acreditado nele. Iria esperar.
No terceiro dia, ainda sentada ao lado do cadáver, disse para si mesma que seu marido estava morto. Comunicou as autoridades aos prantos, dizendo que ele havia cometido suicídio na noite anterior. Após o velório, Holga pegou o pequeno caderno de anotações, ateando fogo a cada pagina.

No sétimo dia, na vala mais nova do cemitério, um caixão estralou. Ele acordou, um pouco confuso, se recordando da bala. Ele havia sobrevivido, tinha descoberto mesmo como vencer a morte. Eufórico, se mexeu, sentindo a madeira úmida ao seu redor. Olhou para a escuridão que cobria seu corpo, estava em um caixão. Holga não havia acreditado nele, ou ele demorou muito? Bateu com os punhos na madeira, fazendo força, precisava sair debaixo da terra, precisava falar para o mundo que havia descoberto como vencer a morte, mas estava enterrado. O ar começou a faltar, e o pânico se apoderou dele. Empurrava com as mãos e os joelhos, mas só sentia o movimento da terra ao seu redor. Aos poucos perdeu as forças e desmaiou. Foi enterrado com a sua descoberta de que havia triunfado sobre a morte, mas a própria morte havia triunfado sobre ele, afinal. 

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